quarta-feira, junho 30, 2004

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLAS

Nesta minha fase de volta aos filmes, assisti também esse Moça com Brinco de Pérolas. Gostei do filme, conseguiu fugir dos estereótipos que perseguem os filmes de época e paralelamente o filme é bastante sensível. Achei interessantes os personagens fortes e profundos e a fotografia marcada por constantes sombras. Em certos momentos, o filme é tenso. Dá pra sentir a tensão no ar na difícil relação entre os personagens.

Não conseguia imaginar como seria a vida de um pintor naquela época medieval e o filme deu uma luz. Devia ser bem complicado o lance de no meio do trabalho acabar a tinta vermelha e ter que ir até a lojinha mais próxima pegar a matéria prima, fazer a tinta, pra só depois poder voltar ao trabalho. Passei a valorizar bem mais o trabalho dos caras, mesmo naquelas pinturas sombrias que eu nem gosto tanto dá pra perceber que teve que dar um sangue pra ficar pronto.

É lírico, é bonitinho, é legalzinho e mais um monte de “inhos”. Bom pra assistir num dia que esteja rolando uma chuvinha, um friozinho e outro monte de “inhos”.

terça-feira, junho 29, 2004

SAFADO

Ouvi um grito ao fundo, uma voz de mulher gritou: -“Safado”. Uma voz de homem retrucou: -“E tu é uma filha da puta.” Olhei pra trás meio que com o canto do olho e vi algum movimento antes de ouvir o primeiro estampido seco. Meu único reflexo foi me adiantar um passo para protegê-la de qualquer eventualidade. Infelizmente, a eventualidade aconteceu, e comigo.

Senti a pontada na altura do estômago e não me lembro de mais nada do que estava acontecendo ao redor, se houve corre-corre, se pegaram o cara que deu os tiros, se mais alguém foi acertado. Todo o cenário em volta apagou, eu era o único protagonista daquela história e precisava, sentado recostado na parede, pensar numa solução em que eu ficasse vivo.

Sempre havia pensado se algum dia na vida eu seria capaz de morrer por alguém ou por alguma causa. Sempre concluía que eu seria capaz de morrer por ela, por um familiar próximo e por um suposto filho, dentre as causas eu só morreria pelo socialismo e mesmo assim com ressalvas. No entanto, naquele momento eu agi instintivamente, precisava protegê-la pois ela era mais frágil, talvez até mais frágil do que eu estirado na calçada. Não, não houve a nobreza de cinema americano ou o beijo da mocinha em seu herói combalido. Não, não foi surreal como o Raul fez parecer em Metrô Linha 743, também não houve lirismo ou espaço pra grandes elucubrações. Minha vida passou diante dos meus olhos e só, parti, fui, fim, finito, the end, já era. Me tornei uma saudade para aqueles que me conheciam e uma estatística a ser citada para aqueles que lutam pelo desarmamento. E só.

segunda-feira, junho 28, 2004

CAZUZA

Lá fui eu ver o filme “Cazuza – O tempo não pára” sem grandes expectativas a não ser a de ouvir umas musiquinhas do Cazuza, ver se a pretensão dos diretores de retratar os anos 80 e talvez até mesmo apreciar um pouco da vida daquele cara que tinha tudo pra ser incorporado a história da MPB mas deixou só uma amostra do seu talento.

Fui surpreendido. O filme é bom. A história é bem contada em se tratando de adaptação de um livro, as atuações são muito boas, principalmente do ator que interpreta o Cazuza que dribla as diferenças físicas e de voz com uma impostação corporal e atuação técnica. O melhor de tudo foi ver um filme nacional que almeja o sucesso popular e é bem dirigido, é tanto Xuxa, Sandy, Avassaladoras que são ruins de dar dó que quando um filme consegue fazer aquele pop de qualidade, que muitos tentam e poucos conseguem, já dá uma sensação de bom cinema. No mais, o filme consegue ser sensível sem ser piegas e como se trata de uma pessoa que viveu a pouco tempo atrás, também conseguiu fugir da fofoca de cabeleireiro. Como crítica, ficaram alguns personagens com estereótipos estranhos ao redor do protagonista.

Doideira esses anos 80! Sai do filme cheirando a bagulho, a chopp no Baixo Leblon derrubado na barra da calça e cantando. Cantando Cazuza, lógico.


terça-feira, junho 22, 2004

ADIOS A BRIZUELA

Já tinha pensado em fazer um post sobre ele quando passei andando em frente à casa dele outro dia. No entanto, dentro daquela idéia de que qualquer obra exige 1% de inspiração e 99% de transpiração, acabei não escrevendo nada sobre aquela figura que pouco conheci e que ultimamente demonstrava estar meio gagá e perdendo um pouco da senilidade.

Na boa, o cara nasceu em Carazinho (ou em algum outro lugar perdido no meio do Rio Grande do Sul) e foi governador do Rio Grande do Sul, governador do Rio de Janeiro e quando se candidatou a presidente em 1989 por muito pouco não foi ao segundo turno. Definitivamente, este cara não é bobo. Admirava o cara, suas idéias, suas parcerias, sua personalidade, sua capacidade de retórica e o fato dele ter alguma ideologia. Ele foi um personagem da política na época em que ainda se faziam personagens que tinham um credo, mesmo que errado, e um discurso que não necessariamente se rendia a falta de tempero do politicamente correto e das estatísticas.

Gostava da parceria de longa data que ele fez com o Darcy Ribeiro – intelectual político do tipo que já não existe mais. Admirava quando ele falava mal da Globo e do monopólio que ela exerce sobre a comunicação, e além de tudo o cara ainda morava em Copacabana, só faltava ele torcer pro Botafogo.

Apreciava a teoria do que ele pregava. Em relação a inconsistência entre a teoria e a prática, ele se mostrava um tanto quanto humano e comum dentre os políticos brasileiros sendo mais um daqueles que ajudaram a enterrar um pouco mais o estado do Rio de Janeiro.

As novas gerações só vão conhecer o significado toxicológico da expressão Brizola, a minha geração foi a última a ter algum contato com a figura que tanto despertou ódio e paixão de uma forma muito peculiar. Pra mim, a característica que eu mais gostava era sua teoria social populista, o que mais me incomodava era a falta de aplicação da teoria na prática. Perde-se um discurso que pouco foi aplicado na prática. Página virada, olha-se pela janela.

segunda-feira, junho 21, 2004

POLITICAMENTE CORRETO

Ultimamente tenho me sentido meio politicamente correto. Não esculhambo causas em teoria justas, não critico pessoas patéticas que fazem cara de boazinhas na TV, não me expresso sem ponderação, só faço críticas politicamente corretas. Estou perdendo a minha capacidade de falar mal daquilo que deve ser criticado. Não estou mais tão amargo como eu gosto de ser.

Por que?! Por que?! Por que?!

Acho que talvez seja um contraponto. Minha vida sob certa ótica está meio amarga, os dias demoram a passar e não faço o que gostaria de fazer e acabo tendo que me segurar em coisas doces. Sweet and Sour. . Passo mais tempo fazendo alguma coisa de que não gosto do que fazendo coisas que gosto ou que possam me agregar algo e quando posso fazer aquilo que gostaria de fazer, estou cansado ou sem paciência e acabo indo fazer alguma coisa meio nada a ver. O tempo conspira contra mim.

Como se não bastasse, estou me sentindo financeiramente incomodado. Minha grana se esvai e quando vejo já acabou, no mês passado fiquei no zero reais por dois dias e o cenário não é de melhora a curto prazo. Logicamente não fiz nada muito demais além do trivial cotidiano. Podem pensar: – Existe gente em situação bem pior! – Mesmo assim, o fato de haver pessoas mais fudidas do que eu não funciona como um consolo.

Fico me segurando nas coisas boas para ter um motivo para sair da cama de manhã, não há espaço para pessimismo, tenho que sonhar e brincar de planejar finais felizes. Tenho que procurar coisas doces naquilo que é cotidiano. Tenho que fugir da minha realidade cotidiana e aspirar profundamente, imaginando que atrás da cortina há um sol que ilumina um final feliz.

quinta-feira, junho 17, 2004

EUROCOPA II – POR QUEM TORCER

Digamos que quando não é o Botafogo ou a seleção brasileira que estão jogando eu tenho dificuldades para escolher um time por qual torcer. Convenhamos que torcer é essencial, não tem a menor graça torcer tão somente por um belo espetáculo e não fazer a menor fézinha que seja em um dos times. Em geral,, eu sigo a seguinte ordem:

- times cariocas excluindo o Vasco (ex: Fluminense x Vasco, torço pelo Fluminense),
- times cariocas incluindo o Vasco,
- times não-paulistas (Ex: Criciúma x Palmeiras, torço pelo Palmeiras),
- times não-paulistanos,
- times brasileiros,
- times latinos americanos excluindo os argentinos,
- times latinos americanos incluindo os argentinos,

Passou desta lista a coisa fica meio complicada. A Eurocopa é um bom exemplo da minha dificuldade em escolher um time pelo qual torcer.

Não sei porque mas acabo sempre escolhendo o país mais fudido entre os dois. No jogo entre Croácia e Suíça torci pela Croácia, no jogo entre Grécia e Espanha, torci pela Grécia apesar da Espanha ter feito um golaço. Se fosse um jogo entre Espanha e Alemanha, eu com certeza torceria pela Espanha.

No jogo entre França e Inglaterra, torci pela França. Ainda não engoli o fato do Blair ter apoiado a guerra do Iraque a aquele Beckham é muito marrento pra bola que joga. Ops! Estava falando de torcer pelo mais fudido e já estou falando de discurso político.

Que coisa mais maluca, comecei este post querendo falar sobre torcer no futebol e cheguei na Guerra do Iraque. Isto tá ficando meio papo de maluco, vou pensar no assunto assistindo um Inglaterra x Suíça. Logicamente torcendo pela neutra Suíça.

quarta-feira, junho 16, 2004

PASÁRGADA

Acho que o poema Pasárgada foi escrito quando o Manuel Bandeira estava desiludido com as mulheres do lugar onde ele morava. De qualquer jeito, também acho que cabem outras inúmeras interpretações ao poema, o difícil mesmo é não apreciar sua leveza, seu toque romântico, seu charme loser e ficar imaginando que deve haver um lugar esperando a gente onde fica nossa paz, nossa alegria, nosso paraíso pessoal, enfim, nossa própria pasárgada.

Lá vai o poema pra matar um pouco a saudade:


"VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de burro Brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei Banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar Histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem de tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide a vontade
Tem prostitutas bonitas
Pra gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas Triste de não ter jeito
Quando a noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei-
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou me embora pra Pasárgada."

Manuel Bandeira


terça-feira, junho 15, 2004

OUTRO DIA

Outro dia desses eu estava viajando e na pousada que eu fiquei quando estava todo grogue de sono indo tomar café da manhã fui saudado por dois filhotinhos de cachorro. Eles eram cinza e tinha umas manchinhas pretas e eram bem simpáticos e faziam aquele esquema de filhote de ficar pulando querendo lhe sujar e depois fica um pulando no outro meio que mordendo e granhindo.

Perguntei pro cara da pousada onde estavam os pais, ao que fui informado de que eles não eram de lá. Pensei seriamente em colocar os cachorros no porta-malas do carro e deixá-los na casa de um amigo meu que quer pagar uma fortuna por um pastor branco suíço. Ia chamá-los de Selvagem e Canibal como uma homenagem ao estilo rústico canino deles e as cores que pareciam camuflagem de invasão noturna.

Se eram vira-latas ou cães de uma super-raça eu não sei. Sei que a jovialidade de dois filhotes pulando pelos cantos foi uma coisa legal e acho que envelhecer significar não se permitir mais ficar pulando feliz pelos cantos e ficar mordendo a nuca de seu irmão gêmeo despretensiosamente. Definitivamente sinto a falta do Selvagem e do Canibal quando estou no trabalho.

segunda-feira, junho 14, 2004

EUROCOPA

Como o Botafogo não anda nada bem e como me amarro em futebol estou me rendendo a Eurocopa desde a semana passada. Na boa, pra ficar melhor só faltava colocarem o Brasil e a Argentina pra termos uma Copa do Mundo fora de época (se temos carnaval fora de época, porque não poderíamos ter uma Copa do Mundo?!).

Eventos como a Eurocopa são a chance de se ver um grande número de craques por metro quadrado, apesar de as seleções não serem atualmente mais os melhores times do mundo. Apesar da aparente inconsistência em se apontar que haverá inúmeros craques mas não os melhores times, eu acho que faz sentido. O futebol atingiu um nível em que o entrosamento e a tática se tornaram essenciais, até maiores do que a habilidade individual em certos casos e as seleções com os jogadores mais habilidosos de uma região não tem tempo suficiente para treinar e conseguir um entrosamento igual ao de grandes times.

O entrosamento é o que permite ao time defender melhor, tocar a bola de forma não óbvia, ter contra-ataques fulminantes e ter jogadores que de posse da bola sabem pelo cheiro onde seu colega de equipe vai estar. No entanto, certos atletas equiparados a artistas que têm visão de jogo, porte e que sabem dar o drible e o chute certos ainda fazem muito pelo futebol. E é por causa deles que eu gosto de futebol.

Hoje tem Dinamarca e Itália. Oba!!

terça-feira, junho 08, 2004

NUMA SEGUNDA-FEIRA

Hoje a manhã foi uma ilustre segunda-feira fresca de outono. Sol, céu sem nuvens e mais azul do que nunca. O Pão de Açúcar como um pedregulho imponente que nasce do mar. Apesar de ser uma segunda-feira, o dia maravilhoso fazia as pessoas parecerem mais felizes, um daqueles dias em que a gente se sente orgulhoso por ser carioca. A janela do ônibus parecia uma daquelas propagandas turísticas, só que sem mulatas, sem samba, sem carnaval, sem cobras e onças, só a simplicidade da beleza do Rio de Janeiro, e convenhamos que não há nada mais carioca do que um ônibus.

No rádio, Detonautas, REM e U2 em algumas de suas músicas mais inspiradas faziam uma trilha sonora para um visual inspirador.

E ainda tem gente que acha que devo ir para o trabalho de metrô porque é mais rápido e seguro com aquele bando de gente com cara de mal humorada e com aquela voz gritando qual é a próxima estação. Aquela viagem estranha num buraco escuro e depressivo.

Tem certos dias em que fico feliz de morar no Rio de Janeiro e ser carioca. Segunda-feira foi um deles, espero que hajam mais dias assim.

sexta-feira, junho 04, 2004

LAPSOS DE COMUNICAÇÃO

Acho que uma questão que me desafia cotidianamente é a necessidade de me expressar melhor para que fique claro o que estou tentando dizer sem haver uma interpretação equivocada, paralelamente, tento também ampliar a minha capacidade de compreender o que outras pessoas dizem, incluindo as mais diversas entrelinhas. Enfim, tento ampliar a capacidade dos outros me entenderem e de entender os outros.

Nos mais diversos momentos observamos lapsos de comunicação, seja no trabalho, entre amigos, em família, numa relação amorosa. E as pessoas vão se comunicando e gerando um “ruído de comunicação” que ocasionalmente chega a situações radicais como:

(Cena – casal na cama, ele acende um cigarro, ela puxa o lençol sutilmente)
- Achei você bastante experiente para quem está transando pela primeira vez?!
- A primeira vez sempre é meio estranha.
- Como assim estranho. Você já teve outras primeiras vezes?!
- Claro, já tive várias primeiras vezes.
- Mas como assim, você já havia transado antes na sua vida?!
- Não estou lhe entendendo. O que você acha que eu fiz para ter dois filhos com o meu ex-marido.
- Porra, mas você me falou que era virgem.
- Mas sou mesmo, nasci no dia 27 de agosto. Meu signo é virgem.
- Sei lá o que diabos você fez, mas existe alguma outra coisa que você esconde de mim?!
- Sabe aquela discussão que nós tivemos dois meses atrás. Quando eu fiz menção a Touro, eu não estava me referindo ao seu signo.

terça-feira, junho 01, 2004

BOTAFOGO X VASCO

Após um longo tempo sem ir ao Maracanã e torcer pelo Botafogo, no último domingo me aventurei na esperança de que o Botafogo com seu time peculiar despacharia o Vasco e conseguiria sua primeira vitória no Brasileiro. Curiosamente, eu não era o único que tinha essa esperança, a torcida do Botafogo era maior e cantava animadamente sem parar. A vitória tiraria o time da lanterna e seria o passo inicial para o projeto de Tókio 2006. Esperança é o segundo nome de qualquer torcedor botafoguense.

Meus sonhos não se realizaram, o time parecia um bando em campo. Não conseguia defender, não conseguia atacar, não conseguia tocar a bola, aquele monte de gente perdida no meio-campo sem saber o que fazer. Aquilo foi me dando uma agonia. Vasco 1, Vasco 2, Vasco 3 e por fim, Vasco 4 e Botafogo nada. No primeiro gol veio aquela sensação de tensão junto com a esperança da virada, no quarto gol houve um sentimento de desilusão juntamente com uma certa resignação, o Botafogo do jeito que está não tem condições de permanecer na primeira divisão do campeonato brasileiro. Lamentável.

Adoro ir ao Maracanã, os sons, a imagem, a torcida são coisas muito legais, mas o que é realmente indescritível é a sensação de sair feliz do estádio quando seu time ganha. No entanto, depois do jogo de ontem, acho que vou ficar um tempo sem ir, parece muito distante a idéia de felicidade associada ao Botafogo e para sofrer, prefiro sofrer em casa. Sofrimento sem grandes pretensões.