sábado, junho 18, 2005

REALPOLITIK

Falam-se em modelos e muitas vezes esquecemos a realidade. A política admite a criação de modelos, busca-se o modelo republicano perfeito, o modelo federativo ideal, idéias de representatividade, participação popular, de sentimento democrático. Desta forma, convivem no mundo o modelo cantonês suíço, o modelo federativo norte-americano, o modelo de poder central francês, e por aí vai. O que existe em comum é a idéia de que esses modelos trazem o melhor para aqueles que vivem no país.

Lamentavelmente, a realidade é muito cruel com modelos. Em se tratando de economia no Brasil nós temos diversas histórias para contar de modelos teóricos lindos e perfeitos que naufragaram por conta da realidade. A realidade é cruel, fria, crua e não perdoa equívocos. No que se refere a política ela também não perdoa os modelos quando estes chegam a prática.

No Brasil adotamos um lindo modelo na Constituição de 1988, criava representatividade a estados minúsculos no âmbito federal, dava poder aos municípios, amadurecia certos órgãos de fiscalização e dava força a um legislativo que viveu durante décadas de enfeite para um governo ditatorial. O modelo da Constituição de 1988 se mostrou adequado a um país que aguardava ansiosamente uma chance de voltar a democracia.

Na prática, a realidade é desvirtuante. Os estados pequenos utilizam sua representatividade de formas questionáveis fazendo alianças prostitutas, os órgãos de fiscalização são absorvidos pela corrupção, o legislativo se apresenta como uma quadrilha nos mais variados níveis que oferece o seu apoio a quem quiser a preços muito altos.

Atualmente, através da denúncia de um ilustre deputado, chegou ao conhecimento do público que se paga uma mesada para que certos políticos ditos aliados mantenham o seu apoio ao governo. Pra mim isso não é novidade, é uma péssima notícia mas não me deixa surpreso. Novidade seria saber que um deputado vive mensalmente com R$8.000,00 líquidos por mês, seria descobrir que as campanhas custam o que realmente é arrecadado, que não há corrupção ou tráfico de influência, que o mundo real não é completamente desvirtuado do modelo republicano e federativo que achávamos que tínhamos adotado.

Um dia Herbert Vianna cantou “Luis Inácio falou, Luís Inácio avisou, são 500 picaretas”. Lamentavelmente este mesmo Luis Inácio foi absorvido pela realidade, vamos ter que alterar a música ou parar de cantá-la. De qualquer jeito, espero que haja uma nova música.

sexta-feira, junho 17, 2005

ANTES DO AMANHECER

Após um atraso de alguns anos finalmente eu conheci o filme que motivou muitos dos mochileiros na época em que eu fui um, o Antes do Amanhecer.

Gostei dos diálogos do filme, é um raro filme verborrágico que não fica enjoativo, talvez pelo jeito jovem dos personagens, talvez pelos assuntos variados e contundentes. As interpretações são leves, Viena se mostra ainda mais charmosa do que ao vivo, a viagem de trem possui aquele habitual lirismo que não atinge aqueles que viajam cotidianamente mas que é uma experiência saborosa para o viajante.

Acho que quem já realmente viajou teve a chance de encontrar sua Celine, mas quando falo em viajar, me refiro a viajar mesmo, de corpo e alma, não aquela história de sair de férias para tirar fotos em pontos turísticos. A chance de conhecer uma Celine aparece naturalmente, uma pessoa especial com a qual sentimos um misto de afinidade e curiosidade que se transforma em uma paixão e imaginamos ser possível ser feliz para o resto da vida com ela. Lamentavelmente existem oceanos de distância, pouco dinheiro para passagens aéreas, uma faculdade por fazer e apesar das cartas ocasionais o cotidiano nos fulmina.

Um dia, deixamos de ser o viajante e passamos a ser o estagiário, que se transforma no empregado, e de repente, tudo vira uma rotina. O lado do mochileiro fica como uma doce lembrança, as fotos ficam guardadas junto com as camisas de flanela, com os CDs do Pearl Jam e do Nirvana e com o sapato de sola gasta. Aquela camiseta de Praga quando usada hoje mais do que nunca assume um cara de “lembrança” e não de uma mera camiseta.

Naquela época, as paixões eram diferentes, a sede era intensa, a busca deslumbrava. Era bom saber que existia algo além do meu umbigo no mundo. Estou curioso para assistir o Antes do Pôr do Sol e dessa vez não vou esperar 10 anos.

segunda-feira, junho 13, 2005

O ROBERTO JEFFERSON ME DEVE R$272,37

A questão é simples. O deputado Roberto Jefferson fez acusações de que outros parlamentares aliados do governo recebiam uma mesada e quem se deu mal fui eu. Fiz despesas em dólar no cartão aproveitando o câmbio favorável e hoje por conta da dita acusação a cotação do dólar subiu cerca de 5 centavos, comparado com o câmbio da véspera, totalizando um aumento de R$272,37 no valor que eu irei pagar na minha fatura.

Se o meu prejuízo foi de quase um salário mínimo, fico imaginando o que aconteceu com as empresas sérias que investem no Brasil e que aqui tem seus lucros, assim como importadores e assim por diante. Imagina a dificuldade de um diretor de empresa brasileira explicar numa reunião com acionistas gringos que um deputado petropolitano numa picuinha de congressistas influenciou na economia e diminuiu a remessa de lucros para a matriz em alguns milhões. Imagina, agora, o quanto os ditos acionistas vão pensar antes de investir um centavo que seja num país que coloca um terno para parecer sério mas continua agindo como o moleque malandro de sempre.

Estou aguardando a assessoria do deputado entrar em contato comigo para acertar como vai ser feito o meu reembolso. Espero que eles sejam competentes, assim como o é a assessoria de imprensa do ilustre que conseguiu plantar a notícia em todos os jornais e telejornais do Brasil e ganhar bravamente a mídia dita isenta, incomodando não só os parlamentares aliados como também o mercado financeiro que busca desesperadamente oportunidades como esta para iniciar um jogo especulativo.

Meu silêncio tem um preço que é de R$272,37, esse é o valor da indenização pelo que vou perder. Prometo que uma vez reembolsado, de brinde, eu não vou questionar a idoneidade do deputado, questionar a aliança do deputado com o ex-presidente Fernando Collor (ninguém vai ser lembrado que ele votou contra o impeachment no que depender de mim!) e não vou dizer que o deputado foi leviano ao fazer graves acusações sem apresentar ao menos umas provinhas do alegado (nisso eu gosto do ACM, ele sempre leva o dossiê fajuto embaixo do braço quando vai fazer suas denúncias), dentre outras coisas. Enfim, vou ter aquela memória curta que faz com que os eleitores cometam as atrocidades que cometem a cada dois anos, atrocidades dentre as quais se inclui a eleição do deputado Roberto Jefferson e outros como ele.