PRIMEIRA NAMORADA
Uma pessoa sobre a qual nunca escrevi foi a minha primeira
namorada. Já escrevi sobre apaixonites,
paixões platônicas, paixões de carne e osso, tocos, mas sempre evitei falar
sobre ela (não escrever o seu nome vai ser uma parte difícil desse texto). Mesmo depois de todos esses anos os
sentimentos em relação a ela são fortes, nada óbvios, difíceis de serem
expressados ou administrados. Ela me
marcou muito, as coisas boas ajudaram a formar a minha idéia de relacionamento
e namoro que carrego até hoje, e o nosso fim, cortou meu coração e deixou uma
cicatriz amarga e profunda, alguma hora eu talvez fale sobre isso.
Quando a conheci, ela era discreta, tímida, uma daquelas
várias meninas que passam desapercebidas pelo corredor de uma escola e que as
pessoas nunca reparam. Eu reparei. E para mim ela era diferente. Tinha um sorriso lindo, e o aparelho dava um
charme. Tinha uma voz que eu adorava e
que eu conseguia ouvir por horas sentado num aparador no pátio interno do
colégio. Ela escrevia muito bem, era
sintética e tinha um texto lindo, enquanto minha vida era (e ainda é) pescar
adjetivos, ela os utilizava de forma precisa e direta. Ela era um pouco mais nova do que eu, mas
tinha um jeito de agir maduro, uma consciência, uma personalidade, uma timidez... Subitamente, eu estava apaixonado.
Numa de nossas conversas no pátio interno, passou a
professora Regina. Ela tinha sido minha
professora de português e nesse ano era professora dela. Em 0.001 segundos ela percebeu o que havia
entre nós. Vi no olhar cúmplice dela uma
benção. Eu sabia que depois ela iria me
zoar de uma forma cifrada que só eu entenderia, essa era a Regina, mas para mim
o importante foi a sua aprovação como quem diz: - Essa é uma menina muito
legal, vai fundo!
E eu fui.
Ironicamente, agora, escrevendo este texto, não me lembro
como foi o nosso primeiro beijo. Me
lembro como foi o meu primeiro beijo, mas não me recordo do primeiro beijo do
primeiro namoro, se foi no colégio, se foi em uma festa, se foi roubado ou
esperado, mas sei que deve ter sido bom.
Aliás, um dos meus grandes defeitos sempre foi o de ter pouca memória
para marcos e datas, mas algumas situações e sensações ficam firmes na memória. Me recordo fortemente da minha vontade de
ficar perto dela o tempo todo. Nossas
longas conversas, nossos gostosos silêncios.
Nossa interpretação ingênua de namoro e de amor.
Nossas idas ao cinema nos finais de semana, filmes bons, filmes ruins,
com um lanche depois que com o tempo evoluiu para um jantar modesto no La Mole
que era muito prazeroso porque estávamos juntos.
Com o passar dos meses, ela ficou ainda mais bonita. Tirou o aparelho e manteve o sorriso. Mudou o estilo do cabelo e ficou mais
linda. Começou a vestir roupas que
valorizavam mais o seu corpo, que era muito bonito e deixou de ficar
escondido. Ela desabrochava e virava um
mulherão. Eu fingia que não tinha ciúmes
e moderava o enorme orgulho que tinha em estar ao seu lado.
Fazíamos várias coisas juntos, e eu queria ficar com ela o maior
tempo possível. Eu me enrolei na
universidade, ela repetiu de ano. Não
sei se ela repetiu pela falta de foco ou pela pouco aptidão à física e a
matemática, inaptidão que não era compensada pelas suas notas em português,
literatura, história e geografia onde o seu texto fazia a diferença. Mas eu acho que atrapalhei ela, coloquei essa
repetência na minha conta, talvez eu pudesse ter racionalmente ajudado mais e
atrapalhado menos, mas não eram tempos racionais para mim.
Em meio ao nosso caos acadêmico, com pressão familiar de
ambos os lados, nós éramos felizes. Acho
que foi quando aprendi que é possível ser feliz no meio do caos quando se está com
uma pessoa que você ama. Nos afogamos
juntos, abraçados.