sexta-feira, julho 29, 2005

MARQUISE

Nunca usava guarda-chuva, eu gostava da sensação de molhar o cabelo na chuva, do vento úmido batendo no rosto e nos dias chuvosos bastava um casaco de chuva e um sapato velho e eu estava tranqüilo. Como parte de um instinto, além de fugir das poças, eu me esgueirava entre as marquises para me molhar um pouco menos. A única coisa que me incomodava eram as pessoas com seus guarda-chuvas cheios das mais variadas pontas e que ficavam andando por baixo da marquise para não se molhar. Ora, se já estão com guarda-chuvas não precisavam andar embaixo da marquise para se molhar.

Um tempo se passou, várias luas depois eu sou parte da massa trabalhadora e mais uma parte da engrenagem / sistema. Como tal, não posso andar esculhambado como gostaria e se eu me molhar da forma como eu me molhava antes iria rapidamente ser vitimado por uma pneumonia por conta dos malditos ar condicionados dos ambientes de trabalho. Acabei sendo obrigado a aderir aos guarda-chuvas, instrumentos que quando não perdidos, esquecidos em casa ou deteriorados, servem para nos proteger da chuva.

Comprei um guarda-chuva relativamente caro daqueles portáteis que se dobram todo e cabem na pasta, botão para abrir, tem material isso, garantia daquilo e vamos lá. Na primeira chuva, descobri que o aspecto tamanho é proporcional a proteção da chuva, ou seja, quanto menor o guarda chuva menos ele protege da água que cai do céu. O meu telhado portátil sub-compacto protege a minha cabeça e uma parte dos ombros e olhe lá quando a chuva está forte.

Outro dia, em meio a uma gelada e chata chuva de inverno, eu vi um ser da mesma espécie que eu era andando todo molhado pela marquise. Acabei me solidarizando, um dia já fui ele. Dei um passo para o lado e fiquei na fronteira entre a marquise e a chuva cedendo terreno para o rapaz que estava todo molhado e parecia contente. Fiquei feliz em saber que ainda existem jovens que saem de rosto aberto na chuva e que gostam de se molhar. Espero que eles nunca deixem de existir.

sábado, julho 16, 2005

CICATRIZES DE GUERRA

É um fato que a guerra trás inúmeras baixas para os lados participantes. Seja a guerra uma guerra militar, aberta, civil, santa, fria ou terrorista. Numa guerra morrem pessoas, gasta-se dinheiro e, o pior de tudo, perde-se a paz.

Uma das maiores cicatrizes que eu acho que ficam são os sobreviventes que perderam pessoas queridas na guerra. Quando um irmão está nos cemitérios da 2a. Guerra na Normandia, ou quando seu pai teve um funeral na Faixa de Gaza, quando seu tio está em valas comuns onde foram enterrados armênios massacrados por turcos ou quando sua mãe foi morta num supermercado iraquiano bombardeado equivocadamente, isso gera cicatrizes que dificilmente desaparecerão e suas marcas profundas deixam uma ferida aberta que só cicatrizará com a revanche, a vingança ou com um longo tempo.

Tais cicatrizes motivam a eterna rivalidade entre os europeus que até hoje cria dificuldade para a formação de uma comunidade européia mesmo depois de tanto tempo. Motiva um jovem palestino a atar bombas ao seu corpo e explodir num posto de segurança israelense para matar três jovens soldados que são tão instrumentos quanto aquele palestino. Imagine o tempo que vai levar para cicatrizar os horrores das guerras entre Sérvios e Croatas?

Tais cicatrizes quando aliadas a uma humilhação diária e a falta de perspectiva relacionada com a estagnação econômica cria um ambiente de nitroglicerina pura, favorável a radicais e a bandeira da vingança. Basta ver o exemplo recente do Iraque indo contra os seus “libertadores”, ou os irlandeses cujo IRA recrutou jovens empobrecidos e humilhados para explodir ingleses.

Se vingança e revanche são sentimentos nobres, eu não sei. Só sei que se um estrangeiro invadindo o meu país matasse alguém de minha família, eu iria matá-lo na próxima esquina. Se não tivesse uma arma, iria ser com uma faca, uma pedra, uma garrafa. Poderiam me chamar de guerrilheiro, terrorista ou o que quer que seja. A família dele também ficaria com uma cicatriz.

sábado, julho 09, 2005

ANTES DO PÔR DO SOL

Outro dia eu mencionei que assisti ao filme, Antes do Amanhecer. Gostei do filme. Logicamente, fiquei curioso para assistir o Antes do Pôr do Sol. Fiquei decepcionado.

Quando assisti o Antes do Amanhecer com um atraso de sete anos, eu o curti com um gostinho de saudosismo. No entanto, apesar de gostar de viajar eu não sou mais mochileiro, e esperava que o Antes do Pôr do Sol fosse fazer uma referência mais clara a minha fase atual. Algo do tipo um ex-mochileiro que não quer se engolido pela rotina, um ex-jovem que não se sente confortável sendo chamado de senhor, aquele período de vida em que continuamos sonhando mas os sonhos tem uma maior dose de realidade do que quando pensávamos em ser astronautas, líder de uma banda de rock ou de transar com a Claudia Schiffer.

Infelizmente, o Antes do Pôr do Sol colocou nove anos depois do Antes do Amanhecer dois personagens meio esquizofrênicos, pessoas pesadas corroídas por angústias pouco explicadas e que vivem em um saudosismo desmesurado e com o recalque de não terem sido felizes juntos. Soa como uma grande falta de perspectiva o fato de se colocar a culpa de todos os seus problemas no fato de não ter reencontrado aquela pessoa que um dia foi especial.

Enfim, perderam a chance de fazer um bom filme contando a história de duas pessoas que um dia se apaixonaram que se encontram nove anos depois. Acho melhor fingir que não assisti e continuar esperando para descobrir se os dois se encontraram ou não 6 meses depois na estação de trem de Viena.