quarta-feira, outubro 25, 2006

Folha de Ponto

Estava chegando o fim do mês, decidi que existiam ainda muitas coisas por fazer tal como preencher minha folha de ponto, decidi começar pela mais fácil. Aliás, considero a folha de ponto onde se declara a hora em que se pretendia chegar e o horário em que pretendia-se sair menos injusta do que a frieza do ponto eletrônico e menos divertido do que o relógio de ponto em que duas vezes ao dia pode-se ter a sensação de ser um Fred Flintstone, um Homer Simpson e até mesmo de um Charles Chaplin.

Pois bem, lá estava eu preenchendo a dita folha de ponto: horário de chegada 9 horas, horário de almoço 12 horas, volta do almoço 13 horas e saída 18 horas. Quando estava na vigésima sétima repetição passou a assistente de meu sub-chefe que é gente boa e abre para mim todas as portas do universo paralelo das rotinas administrativas e aproveitei para perguntar-lhe:

- Fulana, eu estou preenchendo a folha de ponto deste mês e gostaria de saber se devo assinar com a data do último dia do mês na presunção de que saberia que horas iria sair, ou devo datar com o primeiro dia útil do mês seguinte para não haver problemas com presunções.

Fiz a pergunta e a deixei solta no ar tal como uma pluma de travesseiro depois da travesseirada no irmão e não me preparei para a resposta que me incomodaria até às 4 da manhã, hora em que escrevo.

Fulana:

- Como assim você está preenchendo a folha de ponto. Isso só se faz no final do mês.

Desfiei meu rosário de desculpas:

- É que eu sou apressado. Talvez eu tenha um seminário nos dois últimos dias e gostaria de deixar preenchido pra não ter stress. É que não resisti a ver uma folha de ponto em branco pedindo para ser preenchida. Já estamos no final do mês. Sou uma criança com mão nervosa. Estava testando a caneta...

E Fulana me corta:

- É que nós já tivemos um problema com um funcionário que preenchia as folhas de ponto antecipadamente. Ele MORREU no final do mês e como já havia preenchido a folha de ponto toda ficou complicado de explicar pro Recursos Humanos.

Com uma frieza de neuro-cirurgião tive que perguntar:

- E ele morreu de quê? – Sei que a pergunta parece imbecil, e é mesmo, o que a gente não fala nessas horas com medo do silêncio.

- Ele teve alguma coisa durante a noite e ... MORREU.

Bem, era uma resposta simples e direta a de Fulana. Me recobrando do susto fiz outra pergunta estranha, alisando o bigode que não tenho para que soasse inteligente:

- Ora, Fulana. Porque simplesmente não deram um sumiço na folha de ponto do falecido. Sei lá, inventava uma desculpa de que o cara levava para casa para preencher com calma durante o jogo do Botafogo, ou algo assim.

- É, não dava. Senão ele perderia os dias em que ele (ainda vivo) veio trabalhar. Foi a maior confusão.

Fulana saiu e foi continuar seu trabalho de descortinar os processos e procedimentos e eu fiquei lá, olhando pra folha de ponto. E se minha presunção de vida estiver errada, ainda ontem eu estava com febre e gripado. Tenho que me alimentar melhor (na dúvida, almocei no vegetariano). O Recursos Humanos se preocupou com a folha de ponto, e como é que ficou a viúva, os filhos, netos, os amigos do bar, o dono do bar (onde ele tinha conta pendurada, afinal já era final de mês) e os colegas de trabalho que acharam que o atraso dele era normal e mais um bando de gente. Sei lá, tanta coisa, que a última que eu pensaria seria a folha de ponto.

As presunções tem esse problema, quando eu estava na 5ª. série presumi que a garota mais bonita da turma estava me dando bola, tomei um “acho melhor sermos amigos” que me marcou. Neste mesmo ano, presumi que a garota mais baranga estava me dando mole e estava confundindo as coisas por conta de nossa parceria na quadrilha de São João, mais uma vez presumi errado, ela realmente estava me dando mole mas a magrela esquisita de aparelho nos dentes virou uma senhora gata num estilo modelo que geraria inveja alguns anos depois nos meus companheiros de vida boêmia. Não vou falar sobre adolescência porque isso já é papo pra outro boteco.

Andei pensando e girando na cama insone e decidi que vou tentar presumir cada vez menos, vou me vestir de sinceridade e da armadura de São Jorge e vou ser direto e objetivo, começando por agora. Quem quer que esteja lendo esta mensagem e trabalhe comigo, caso eu venha a partir desta para uma melhor (toc, toc, toc), como primeiro pedido, peço para que consolem minha esposa e meus familiares, inventem e mintam se for o caso, mas os consolem. Como não tenho muitos bens tudo fica mais simples, formatem o HD do meu terminal, joguem minha escova de dentes fora e deixem o resto da minha pasta de dentes para meu companheiro de sala. Como último pedido, desapareçam com a minha folha de ponto. Não quero ser um estorvo para o Recursos Humanos.